Proteja da razão teu sentimento.
Tente ser feliz enquanto
A tristeza estiver distraída.
Conte comigo
A cada segundo dessa vida.


É este o problema com a bebida, pensei, enquanto me servia dum copo de absinto. Se acontece algo de mau, bebe-se para esquecer; se acontece algo de bom,bebe-se para celebrar, e se nada acontece, bebe-se para que aconteça qualquer coisa. Mas ainda acho muito melhor beber do que estar apaixonado. Porque as pessoas apaixonadas tornam-se muito suscetíveis, perigosas. Perdem o sentido da realidade. Perdem o sentido de humor. Tornam-se nervosas, psicóticas, chatas. Tornam-se, mesmo, assassinas.
Embriagam-se em outro líquido queimante que não absinto, ou licor, ou whisky, ou gim, ou vodka. E algumas delas também caem de porre, por simplesmente amar. Com esse minha mania metódica, me perguntei, qual é a diferença entre amar e beber ? Talvez porque o amor te traga de volta algo mais do que cirrose e morte precoce, saia ganhando no final. Pra mim tanto faz, aprendi a beber amando alguém. E ainda que pudessémos morrer lado a lado, gostaria que fosse com um último gole de conhaque, ou vodka, ou gim, ou meu tão fiel absinto verde de todos os dias.
Até porque, se tratando de sedução etílica, não tem perfume que me chame mais do que aquela fada verde, bonita. Farta de carnes e alvos os dentes, que vieram me beijar a têmpora dolorida. Essa fada absurda que me tira a dor de cabeça, e a tensão do corpo, que me relaxa e me desfaz em gozo. Esta mesma fada etérea e cor de esmeralda que me faz divagar numa mesa de bar, sobre bebidas e paixões mal resolvidas. Que me faz escrever contos e poemas sobre a vida sorvida em goles de absinto.
* inspirada em Charles Bukowski.




A morte súbita de Grace Ashbury foi um choque para todos, inclusive para ela. "Uma perda lastimável", foi o último pensamento que cruzou sua mente, antes que seu corpo inteiro se chocasse contra o chão de linóleo. O sangue que agora estagnava em seu corpo, outrora fora quente e ocre, como a sua alma, que fervia com paixão. Mas, no presente momento, a chama da existência de Miss. Ashbury se apagava, pouco a pouco, com um leve brilho perolado, e muita surpresa. Não que ela nunca tivesse imaginado sua morte. Pelo contrário, na infância costumava passar horas imaginando o incêndio que lhe lamberia a vida, fumegante. Ou a pressão de toneladas de oceano sobre seus tímpanos, afogando sua alma lentamente... O que mais aborrecia Grace, entretanto, não era simplesmente morrer. Era morrer assim, ao relento, uma morte súbita, sem paixão, sem mistério. Grace sempre fora daquelas românticas inveteradas, ela queria morrer de amor.

Eu fico aqui sentada nessa sala azul, ouvindo Led Zeppelin. Ainda acho que é melhor ter o Plant gritando nos meus ouvidos do que ter que aturar uma aula dupla de matemática. Todo mundo sabe que eu não suporto exatas, especialmente aqueles cálculos longos e cheios de fórmulas deduzidas. Acontece que eu meio que tenho que passar por isso, caso queira ter uma vida legal lá na frente. Com condições de colecionar meus vinis de rock, meus dvds de clássicos de cinema e meus livros. Tenho que aturar esse professor quase todos os dias, e passar por cima de suas taxas de juros compostos, com a vontade e força de um trator. Aí, quando eu estiver feliz e com tempo suficiente, daqui a alguns anos, colocarei meu LP do Led pra tocar. E meus filhos irão crescer com estabilidade e segurança, ouvindo Whole Lotta Love. Céus, o professor colocou uma questão gigantesca de logaritmos no quadro, acho que é hora de parar de pensar no futuro, e me concentrar nesse presente chato, de números..
A vida de vestibulando é dureza, e hoje eu já acordei com sono ;*




Acredito de verdade no poder de Keith Richards. Não que ele seja um homem extremamente forte, ou de beleza rara. Mas no mundo em que ele vive, nada disso importa. Keith tem a agilidade exata com suas amigas de seis cordas, e seus riffs só podem ser mágicos. Ou tem outra forma de explicar a vida eterna do Sr. Richards ?